Homenagem a Zózimo Bulbul

Veja a Homenagem de Zulu Araújo ao cineasta Zózimo Bulbul

 

TEXTO: Zulu Araújo | FOTO: Ierê Ferreira | Adaptação web: David Pereira

O cineasta Zózimo Bulbul | FOTO: Ierê Ferreira

O cineasta Zózimo Bulbul | FOTO: Ierê Ferreira

 

Homenagem a Zózimo Bulbul por ZULU ARAÚJO:

Não poderia haver título mais coerente para sintetizar a trajetória de Zózimo Bulbul do que este: Alma no Olho, que deu título a um dos melhores documentários sobre a questão negra no Brasil. Um documentário instigante, polêmico, criativo e, sobretudo, ousado. Tão ousado que, até mesmo a ditadura, impregnada do seu racismo obtuso, não conseguia admitir que tivesse sido produzido por um negro. Algo tão genial que, por conta disso, fez com que ele amargasse alguns dias na prisão, até que negasse a sua autoria e indicasse o “verdadeiro” autor, que teve que inventar para poder se safar.Assim era o Zózimo. Assim era sua alma. Assim era sua luta. Clara, límpida, direta, rasgante. Olho no olho, sem papas na língua, sem mais, porém reto como uma flecha. Esteve presente em quase todos os movimentos estéticos vanguardistas do cinema brasileiro, nas décadas de 1960 e 1970, fosse como ator ou diretor. Compasso de Espera, de Antunes Filho e Terra em Transe, de Glauber Rocha, são exemplos marcantes, como ator. Abolição e Alma no Olho são exemplos autorais, de seu compromisso com o cinema e o povo brasileiro.

Não era um militante clássico do movimento negro, nem da política tradicional. Era um negro em constante movimento, na busca incessante pela cidadania plena, reconhecimento profissional e exercício da igualdade, fosse na arte ou na vida. Era avesso a qualquer tipo de subordinação. Inquieto, às vezes, agressivo, mas sempre com o olho no futuro e um passo à frente. Tinha consciência de que sua imagem podia e deveria ser um canal de suas ideias artísticas, étnicas e políticas e não se furtava a isto. Expunha-se de forma visceral, exercia sua liberdade de pensamento e ação na plenitude. Talvez por isso mesmo nunca tenha se filiado a nenhuma organização do movimento negro, embora sempre estivesse presente nos seus momentos cruciais. Assim era Zózimo Bulbul.

Nunca foi um ingênuo, nem muito menos um deslumbrado com ou pelos holofotes que suas atuações proporcionavam. Tinha a compreensão clara, que mesmo sendo um ótimo ator, um bom diretor, um galã (na acepção da palavra), um homem inteligente e competente, ainda assim, sabia que suas ambições e o seu talento não cabiam neste mundo preconceituoso e racista que eram, e ainda são, o cinema e a televisão brasileira. Mas nem por isso deixou de contribuir para a quebra deste estigma: protagonizou com Leila Diniz, numa novela antológica, intitulada Vidas em Conflito, o primeiro casal inter-racial da televisão brasileira.

Esta certeza do não reconhecimento sempre o magoou, mas nunca o abateu. Para fugir do estereótipo do “neguinho que gostou da filha da madame”, radicalizou nas suas interpretações. Fez do seu talento um instrumento permanente de denúncia do racismo brasileiro e, da sua inteligência, a garantia da qualidade e profissionalismo naquilo que fazia. Apostou em quebrar barreiras, estabelecer paradigmas, ousar e criar, por mais complicado que isso pudesse parecer. E assim, Zózimo Bulbul seguiu em frente, virou referência e com a alma no olho, indignação na cabeça e dor no coração, partiu com a certeza de que não passou em branco pelo planeta Terra. Axé ! Toca a zabumba que a terra é nossa!

 

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