Negra e muçulmana no Ramadã, em meio ao coronavírus

Fernanda Oteroabril 27, 202011 min
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Muçulmanos de todo o mundo iniciaram as celebrações do Ramadã na última sexta-feira, 25 de abril. Segundo estudiosos e líderes religiosos de todo o mundo, este será diferente de todos os anteriores.
O Ramadã é o nono mês do calendário lunar muçulmano. Foi durante este período que o então comerciante Maomé, analfabeto, 40 anos de idade, fez seu primeiro contato com o anjo Gabriel e começou a receber as mensagens de Allah, durante um retiro próximo à cidade de Meca. Depois de sua morte, no ano 632, seus seguidores começaram a recolher essas mensagens. O livro sagrado da fé muçulmana, tal como conhecemos hoje, foi organizado por Omar no ano 650. Alcorão significa “lido” ou “recitado”.
Os muçulmanos são praticantes do islã, a segunda maior religião do mundo depois do cristianismo. De acordo com o último levantamento mundial sobre as religiões, realizado em 2010, 1,6 bilhão de pessoas praticam a religião, que está mais concentrada em países da Ásia-Pacífico, com cerca de um milhão de fiéis. As regiões do Oriente Médio e Norte da África contabilizam 320 milhões. Na América Latina e Caribe são 840 mil.
A religião muçulmana possui cinco pilares ou leis fundamentais, que devem ser respeitados pelos crentes:
1. Shahada – Proclamação da fé;
2. Salah – Oração: os muçulmanos devem obedecer aos rituais diários de oração, reafirmando sua submissão a Allah;
3. Zakah – Caridade: os mais favorecidos economicamente devem partilhar com os mais humildes;
4- Swan – Jejum do Ramadã: deve ser praticado pelos indivíduos saudáveis e consiste na completa abstenção de comida, bebida e atividades deleitosas (como sexo, jogos e diversões) do nascer ao pôr-do-sol. Durante o Ramadã, os devotos se unem em oração, realizando ao final do dia, refeições comunitárias, em especial as distribuídas nas mesquitas de todo o mundo; e
5- Hajj – Peregrinação a Meca: pelo menos uma vez em suas vidas, todos aqueles que tiverem condições (físicas e financeiras) para tanto, devem visitar a cidade sagrada de Meca durante o último mês do calendário islâmico.
Com as medidas de distanciamento social adotadas em todo o mundo por causa da Covid-19, as celebrações do Ramadã em 2020 serão diferentes de tudo que já foi registrado em épocas passadas.
“Houve a Segunda Guerra Mundial, além das catástrofes naturais, mas a partir de literatura passada, textos históricos e vários arquivos, descobri que os muçulmanos ainda se reuniam durante o Ramadã, apesar da guerra ou das catástrofes, e ainda observavam juntos os seus rituais religiosos. Eu não me lembro de nenhuma situação similar” refletiu o pesquisador Mohd Faizal Musa, do Instituto do Mundo e da Civilização Malaia da Universidade Nacional da Malásia (ATMA),em entrevista a site All Jazeera.
Filha de uma diplomata nigeriana,J. Betso, de 25 anos, vive desde os 12 na Irlanda, onde decidiu ficar quando sua mãe terminou o serviço e voltou para a Nigéria.
“Somos muçulmanos, antes de sermos negros. O meu povo é calmo e muito amistoso” disse ela.
Betso usa um lenço para cobrir os cabelos e foi vítima de islamofobia enquanto andava pelas ruas de Dublin alguns anos atrás.
“É incomum uma mulher negra e muçulmana viver sozinha em outro país. Algumas pessoas da minha comunidade consideram isso um pecado. Eu sei que não estou desrespeitando ninguém, não vejo dessa forma. Esse é o caminho para que eu seja independente. Quando você faz uma escolha você tem que encarar as consequências. Especialmente durante o período do Ramadã, quando minha família não está comigo, e eu tenho que ficar sozinha, fazer tudo sozinha.”
Betso se surpreende com a ignorância de algumas pessoas contra sua religião, sua pele, até mesmo, sua língua.
“É difícil acreditar que algumas pessoas olhem para mim e vejam apenas uma mulher negra e muçulmana,  nessa ordem. Eu nao me vejo como uma negra ou muçulmana apenas, me vejo como um ser da espécie humana. Ainda que eu fale inglês, tenha crescido e sido educada na Irlanda, existe ignorância. Já me senti como se não estivesse sendo aceita, algumas pessoas querem te fazer sentir como se você não fizesse parte, te julgam antes mesmo de te conhecer”, desabafa.
“Nossa religião nos conforta, nos da esperança. Não importa onde você estiver, não importa o que você faça, Deus estará lá para te perdoar” concluiu.
Jejuar sim, mas com saúde
Se você suspeita possuir algum sintoma da doença, procure imediatamente um médico. Dentro das normas da religião, após a puberdade, todos devem realizar o Jejum do Ramadã. Estão dispensados dessa obrigação os idosos, as mulheres grávidas e amamentando e os enfermos.
Com informacoes da All Jazeera e Pew Research Center

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Fernanda Otero

Correspondente da RAÇA na Europa e Africa é Jornalista e Tradutora. Foi selecionada com outros cinco jornalistas brasileiros pela Fundação Thomson-Reuters para um curso sobre os Objetivos do Milênio (2015).

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