Veja a história do sambista conhecido como Batatinha

 

TEXTO: Redação | Ilustração: Leandro Valquer | Adaptação web: David Pereira

Ilustração do sambista Batatinha | Ilustração: Leandro Valquer

Ilustração do sambista Batatinha | Ilustração: Leandro Valquer

O samba de Batatinha é samba de gente grande, coisa da antiga. Muitos equiparam a qualidade de sua obra, por exemplo, ao nível do mestre Cartola, com composições de belezas extraordinárias, mas, infelizmente, ainda pouco conhecida e divulgada. Batatinha era um daqueles que compunham na base da caixinha de fósforo, aqueles sambas cheios de cores e também doloridos que alegram a gente. Fazia músicas desde os 15 anos, época em que começou a se envolver com o ambiente musical da Bahia, trabalhando ao mesmo tempo como office-boy do Diário de Notícias, em Salvador. Mas desde cedo (com 10 anos) começou a trabalhar numa marcenaria para engordar o orçamento da família, que contava com mais nove irmãos.

Logo foi para  o jornal Estado da Bahia, tornando-se, em pouco tempo, profissional da gráfica. Sua carreira artística iniciou-se na Rádio Sociedade da Bahia, em 1944, como cantor no programa Campeonato de samba, com a ajuda do compositor pernambucano Antonio Maria. Antes disso, Batatinha – malandra e inocentemente – apresentava suas composições como se fosse de outros autores, afim de que seu trabalho de intérprete ficasse mais valorizado. Dessa maneira, Oscar da Penha que, aliás, ainda não era o Batatinha, ganhou o segundo lugar no campeonato cantando 212, samba que era realmente de Roberto Martins e Mário Rossi.
Oscar da Penha virou uma revelação na Rádio Sociedade da Bahia. Nessa época, para elogiar, conferir qualidades a algo ou alguém, dizia-se que tal fulano era batata. Em uma das apresentações de Oscar da Penha na rádio, Antônio Maria apresentou-o como “nosso batata”. Humildemente, Oscar corrigiu: “Não sei se sou batata, acho que sou apenas uma pequena batata, uma batatinha”. Daí em diante ele não era mais o Oscar da Penha, mas o Batatinha.

Seus sambas passaram a fazer parte do repertório da Rádio Sociedade da Bahia, que era a principal da região norte/nordeste. No entanto, a primeira gravação aconteceu somente em 1957, na voz de ninguém menos que Jamelão, que volta e meia fazia incursões pela Bahia, chegando a conhecer boa parte dos sambistas da terra. O samba gravado foi Jája na Gamboa. Três anos mais tarde, Glauber Rocha lançou o filme Barravento, incluindo na trilha sonora um samba da Batatinha, Diplomacia, contado por um pescador: “...Meu desespero ninguém vê/ sou diplomado em matéria de sofrer...”.

A partir de 1965, sua obra ganhou dimensão nacional na voz de Maria Bethânia, que gravou um LP intitulado Maria Bethânia, incluindo no repertório duas canções de Batatinha numa mesma faixa: Só eu sei e Diplomacia. No disco Rosa dos Ventos, mais 3 canções: Toalha da Saudade, Imitação e Hora da Razão. “Gosto de Batatinha, como gosto da luz da lua, do som do tamborim, do samba em tom menor, das coisas tristes e simples. Batatinha pra mim, é uma pessoa rara, um artista”, comentou a diva sobre o compositor. Em 1972, ela ainda gravou o disco, Drama, incluindo outro samba do mestre: O Circo. Bethânia sempre foi uma das maiores difusoras da obra e da memória de Batatinha.

 

Somente em 1968, Batatinha gravou com o seu jeito e sua voz. Era seu primeiro disco, intitulado Batatinha Futebol Clube. Paulinho da Viola também descobriu Batatinha em uma de suas incursões pela ‘Bahia de todos os sambas’. Também descobriu seu bando, formado na velha-guarda por Riachão e Panela, além da ala da mocidade, composta por bambas como Edil Pacheco, Ederaldo Gentil, Tião Motorista e Walmir Lima. A tertúlia se formava no Pelourinho. Paulinho da Viola de volta ao Rio de Janeiro, anunciou sua visão/audição miraculosa, que teve deste maravilhoso grupo.

Paulo Lima, então diretor de produção da Polygram não vacilou, armou um estúdio improvisado na Vila Velha, em Salvador, para gravar o disco Samba da Bahia, relíquia que merece outras edições. Lá vemos o depoimento de Paulino da Viola: “Batatinha, um simples cidadão de Salvador, gráfico, casado, pai de muitos filhos, alisa a cabeça branca e sorri. Apanha a caixa de fósforos e desfia seu rosário – é assim que se diz no samba – para a felicidade daqueles que têm o privilégio de estar perto dele e conhecê-lo. Eu o coloco ao lado de um Nélson Cavaquinho e um Cartola, no nível da poesia popular mais pura. Digno representante do samba mais verdadeiro que conheço”.

Batatinha trabalhou duro até mesmo depois da aposentadoria. Morreu em três de janeiro de 1997, deixando uma família grande. E, para ela, um tesouro: sua obra, seus sambas que ele guardava na memória como um velho griot. Seus filhos e netos preservam o brilhante legado que Batatinha nos deixou. Pra saber mais sobre ele assista ao filme o Poeta do Samba, dirigido por Marcelo Rabelo.

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