Oswaldo Faustino conta a história de Oscar Micheaux, pioneiro do cinema afro-americano

 

TEXTO: Oswaldo Faustino | FOTO: | Adaptação web: David Pereira

Oscar Micheaux (centro) em um set de filmagem, em 1923 | FOTO: Divulgação

Oscar Micheaux (centro) em um set de filmagem, em 1923 | FOTO: Divulgação

Não fosse uma recente mostra de cinema apresentada no Centro Cultural Banco do Brasil, em São Paulo e no Rio de Janeiro, nosso conhecimento sobre o cinema afro-americano se resumiria aos filmes produzidos pela chamada Blaxploitation, ou Black Explotation, no início dos anos de 1970, e aos cineastas negros contemporâneos, como Spike Lee, Gina Prince Bythewood, John Singleton e Lee Daniels, todos indicados ao Oscar. Porém, graças à mostra, já sabemos que, de 1919 a 1948, Oscar Devereaux Micheaux dirigiu mais de quatro dezenas de filmes.

O mais importante é saber que cinema, para Micheaux, não era mero entretenimento, a tônica principal de Hollywood. Seus filmes eram engajados com propósitos políticos e sociais. Filmava com afro-americanos para plateias afro-americanas. Seu Within our Gates (Dentro de Nossas Portas), de 1920, é uma resposta direta ao discurso sulista de “O Nascimento de uma Nação”, feito por David W. Griffith, lançado em 1915, que heroifica a Ku Klux Klan e apresenta os negros como traiçoeiros.

Quinto dos 13 filhos de um casal de agricultores ex-escravos de Illinois, Micheux nasceu em 1884. As condições em que a família vivia o tornaram um jovem inconformado. Ainda adolescente, já morava sozinho em Chicago e, depois de trabalhar num curral, numa siderúrgica e como engraxate em uma barbearia, conseguiu seu primeiro bom emprego: porteiro e cobrador nos elegantes trens Pullman. Além de bom salário, teve a oportunidade de viajar e fazer alguns contatos que mais tarde lhe seriam muito úteis. Sua trajetória tem todos os ingredientes para um bestseller ou série de sucesso na TV. Em uma das histórias maismarcantes, sua primeira esposa, descontente com a falta de atenção e dedicação exagerada aos negócios, aproveitou uma viagem do cineasta para vender a propriedade do casal, em Dakota do Sul, limpar sua conta bancária e fugir com o filho.

Cena da novela The Homesteader, em 1917 | FOTO: Divulgação

Cena da novela The Homesteader, em 1917 | FOTO: Divulgação

Começou a escrever artigos para o The Chicago Defender e algumas histórias para cinema, cuja indústria começava a nascer. Lançou, em 1913, seu primeiro romance autobiográfico: The Conquest: The Story of a Negro Pioneer, no qual aproveita para disseminar o pensamento de que os negros e negras deveriam descobrir seu potencial e ocupar espaços em que eram excluídos. Dois anos depois, lançou The Forged Note (A Nota Forjada). Publicou mais cinco livros, porém foi a novela The Homesteader, de 1917, que discute o tema das relações raciais, a primeira que ele adaptou para cinema. Apesar do descontentamento do clero de Chicago, o filme, lançado em 1919, atraiu bom público e rendeu críticas favoráveis. A maioria dos filmes de Oscar Micheaux, fossem mudos ou falados, bateu de frente com as leis separatistas Jim Crow,dos estados sulistas dos EUA. Ele discutiu, também, através de suas películas, a ascensão social dos afro-americanos. Fundamentalmente, seu objetivo era reverter a imagem negativa dos negros construída pelos brancos, e como ele mesmo disse: “... elevar o nosso povo às maiores alturas”.
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