Raça Indica

Raça Indica os livros “O caminho de casa”, de Yaa Gyasi e “Imprensa Negra no Brasil do século XIX”, de Ana Flávia Magalhães Pinto e o filme “12 anos de escravidão”, de Steve McQueen.

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O caminho de casa, de Yaa Gyasi

Adoro os livros que logo nas primeiras páginas apresentam uma árvore genealógica. Além de facilitar a compreensão sobre quem é quem na história, fica nítido que elas se entrelaçam, coincidem e que as escolhas de uns interferem no presente e no futuro de outros. Essa foi a sensação que tive ao ler “O caminho de casa”, de Yaa Gyasi, lançado em 2017 e disponível em português pela Rocco, com tradução de Waldéa Barcellos. 

O livro de 448 páginas é o primeiro de Yaa Gyasi e foi aclamado pela crítica especialmente norte-americana quando lançado. O romance  colocou a jovem escritora na lista de autores de destaque com menos de 35 anos do National Book Foundation e garantiu a ela o prêmio PEN/Hemingway em 2017 na categoria melhor livro de estreia. 

A autora Yaa Gyasi, que nasceu em Gana e cresceu nos Estados Unidos, anuncia logo nas primeiras páginas: “A família é como a floresta. Se você estiver do lado de fora, ela é fechada; se estiver dentro, verá que cada árvore tem sua própria posição” – provérbio Akan. 

Yaa Gyasi, que dedicou o livro aos pais e irmãos, conta muitas histórias para explicar os diferentes e tortuosos caminhos das irmãs Effia e Esi.  A história é ambientada em duas aldeias distintas de Gana, no século XVIII. Ao contar a história das duas irmãs, a autora também dá uma aula sobre as batalhas locais entre os povos da região, a respeito da miscigenação, do comércio de pessoas escravizadas e sobre o racismo. 

Um dos trechos que mais chamou minha atenção está no capítulo “Yaw”, professor que com propriedade ensina: “Nós acreditamos na história de quem detém o poder, é ele que acaba escrevendo a história. Por isso, quando se estuda História, é preciso sempre fazer perguntas. Que história não está sendo contada? De quem é a voz que foi reprimida para que essa voz pudesse se fazer ouvir? Quando vocês tiverem descoberto essas respostas, precisarão encontrar aquela história também”. 

Decidi acreditar na história contada por Yaa Gyasi. Me fez atravessar o oceano Atlântico, conhecer Gana do século XVIII, fazer o caminho reverso, entrar em minas de carvão, me deixou com vontade de comer fufú de inhame. Me entregou as memórias familiares que possivelmente foram vivenciadas pelos meus antepassados. 

https://www.rocco.com.br/livro/o-caminho-de-casa/

12 anos de escravidão

Obviamente é uma história triste. É mais triste porque ainda que a escravidão tenha terminado há quase dois séculos nas américas, você pode ficar com a sensação de que se você é uma pessoa negra isso ainda pode acontecer. 

Lançado em 2014, o filme joga luz na história real de Solomon Northup, um homem negro liberto que é escravizado e passa 12 anos em cativeiro. Começa, então, uma luta sem fim para que sua mente não seja aprisionada. 

Músico, letrado, casado e pai, Solomon Northup foi escravizado e trabalhou forçadamente em fazendas de algodão a centenas de quilômetros de sua cidade natal, Nova Iorque, por doze anos, até conseguir provar sua real identidade.

Dirigido por Steve McQueen e produzido por Brad Pitt, o filme que é uma adaptação da obra homônima de Solomon, traz um elenco de peso. No papel principal está Chiwetel Ejiofor, Lupita Nyong’o como Patsey, Michael Fassbender como Edwin Epps, Sarah Paulson como Sra. Epps e o próprio Brad Pitt como Bass. No Oscar de 2014, o filme levou três estatuetas: Melhor Filme, Melhor Atriz Coadjuvante (Lupita Nyong’o), melhor roteiro adaptado (John Ridley). 

Não é um filme para as tardes de domingo, mas ensina muito sobre coragem e persistência. Um dos trechos mais lindos na minha opinião é o momento em que ele e outras pessoas escravizadas fazem um funeral e, em um ato de redenção a si mesmo, Salomon canta fervorosamente. 

Infelizmente, a história de Solomon Northup não foi a única. Certamente muitas pessoas passaram pela mesma situação. No Brasil, história similar pode ser observada na vida do jornalista, jurista e abolicionista Luiz Gama, que, em 1840, ainda menino e liberto, foi vendido como escravizado. Diferente de Solomon, Luiz Gama consegue fugir, estudar e se transformar em um dos mais importantes defensores de pessoas escravizadas. Em sua homenagem há um busto dele no Largo do Arouche, região central da cidade de São Paulo. 

Leia também a crítica publicada pela revista Raça em 2016. 

Trailer Legendado: https://youtu.be/OaZeGHvnXP4

Imprensa negra no Brasil do século XIX, de Ana Flávia Magalhães Pinto

Já que estamos falando de escravizados e de seus sonhos e feitos por liberdade, a terceira indicação desta semana é o livro da professora Ana Flávia Magalhães Pinto, lançado em 2010, pelo Selo Negro Edições, na série Consciência em Debate, que tive o privilégio de ler antes de ser publicado. 

Assim como Yaa Gyasi, Ana Flávia Magalhães Pinto dedica o livro, que é resultado de uma extensa pesquisa de mestrado, aos seus pais, Sara e Luiz, a quem ela se refere como símbolos da resistência. 

O livro virou um grande objeto de consulta para mim. Vira e mexe estou buscando uma referência nele para fazer um texto, uma apresentação. A primeira vez que li, chorei. Simplesmente chorei ao descobrir o quanto jornalistas como eu fizeram pelo sonho de liberdade. 

A escrita é leve, bem argumentada, repleta de provas e costurada de tão maneira que se torna inequívoco registro da participação ativa da imprensa negra na luta por liberdade. São 181 páginas divididas em quatro capítulos que analisam oito títulos, compreendendo o período de 1833 a 1899. Inclusive, 1833 é uma data a ser registrada. Foi naquele ano, no dia 14 de setembro, que o primeiro jornal da imprensa negra brasileira foi publicado, chamado de “Homem de Cor”. 

É um livro de história. De muitas histórias. Os periódicos escolhidos pela autora para a análise aguçada levam os/as leitores/as para muitos lugares, na medida em que cada contexto é tão bem descrito e examinado. 

Hoje, revendo algumas páginas e lembrando do choro da primeira leitura, fica nítido para mim que as lágrimas daquele momento desvendaram meus olhos. Acho que a pergunta que naquele momento não fui capaz de fazer é: por que não aprendi sobre isso na escola? Por que nunca soube disso enquanto estava na faculdade de jornalismo? 

A resposta está certamente no apagamento, no ato cotidiano de invisibilizar as pessoas negras e os seus feitos. 

Segundo a página do livro no site da editora: “Ao ressaltar momentos marcantes da imprensa negra oitocentista, este livro debate as formas de resistência negra e contribui para o enfrentamento da discriminação racial no Brasil. Num momento em que nosso país se depara com temas polêmicos, como o Estatuto da Igualdade Racial e as cotas em universidades, a Coleção Consciência em Debate pretende discutir assuntos prementes que interessam não somente aos movimentos negros como a todos os brasileiros. Fundamental para educadores, pesquisadores, militantes e estudantes de todos os níveis de ensino”. 

https://www.gruposummus.com.br/livro/imprensa-negra-no-brasil-do-seculo-xix/

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Jornalista, pós-graduada em comunicação e saúde, consultora na área de comunicação, planejamento e sistematização com foco em saúde, gênero e raça. Escreve sobre beleza, identidade e autoestima.

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