Raça Indica

Neste edição sugerimos os livros: “A Cor Púrpura”, de Alice Walker e “Guerreiras da Paz” de Leymah Gbowee e a série “Voices of Fire, de Pharrell Williams.

A Cor Púrpura, de Alice Walker

Deus é mulher? Quero acreditar que sim. Só uma mulher poderia de fato ouvir e atender as súplicas de Celie, personagem principal do livro “A Cor Púrpura”, lançado em 1982 pela aclamada escritora norte-americana, Alice Walker. 

Tive o privilégio de ver pessoalmente a autora durante uma feira do livro em Brasília (DF) há pouco mais de dez anos. Consegui, ainda, um autógrafo na 9a edição da obra (2009), publicada pela editora José Olympio, com tradução de Betúlia Machado, Maria José Silveira e Peg Bodelson. 

O livro narra, em 335 páginas, a vida dura, cheia de violências e privações de Celie. Uma jovem doce,  temente a Deus (achismo meu) e com poucos desejos – entre eles, o de salvar a irmã mais nova das garras do pai predador. 

“Querido Deus, Eu tenho quatorze ano. Eu sempre fui uma boa minina. Quem sabe o senhor pode dar um sinal preu saber o que tá contecendo comigo”. 

Celie não se cansa de pedir sinais e ajuda, como esse registrado logo nas primeiras páginas do livro. São muitos anos vivendo o pior que o mundo pode oferecer para uma jovem negra no sul dos Estados Unidos. O machismo e o racismo estão a todo momento rondando Celie e todos os outros fantásticos personagens que a autora criou nesta obra, cujo qualquer adjetivo que eu possa atribuir parece menor. 

A redenção de Celie chega muito tempo depois, quando ela vai encontrando força e cumplicidade com outras mulheres. Ela toma consciência de si, descobre-se bela, interessante e atraente. Essa descoberta vai surgindo nas trocas de cartas com sua irmã Nettie e depois na companhia da destemida Sofia e da ousada Shug. 

Alice Walker começa e termina o livro agradecendo ao “Espírito”, “sem cuja assistência nem este livro nem eu poderíamos ter sido escritos”. E finaliza: “Eu agradeço a todos neste livro por terem vindo”. A.W., autora e médium.

“A Cor Púrpura” é um best-seller (sucesso de vendas), foi traduzido em muitos idiomas ao longo dessas quase quatro décadas. É também premiadíssimo e já virou filme homônimo, dirigido por Steven Spielberg, e estrelado por Whoopi Goldberg (Celie), Oprah Winfrey (Sofia), Danny Glover (Albert) e Margaret Avery (Shug Avery). 

Segundo o site da editora, “apesar da dramaticidade de seu enredo, “A Cor Púrpura” se mostra extremamente atual e nos faz refletir sobre as relações de amor, ódio e poder em uma sociedade ainda marcada pelas desigualdades de gêneros, etnias e classes sociais”.

Voices of Fire: novas vozes do gospel, de Pharrell Williams

E já que nesta edição do Raça Indica estamos também falando sobre espiritualidade, de conversas com Deus, a sugestão de produção audiovisual é “Voices of Fire: novas vozes do gospel”, série documental e original da Netflix, produzida pelo músico Pharrell Williams, cuja primeira temporada, com seis episódios, já está disponível na plataforma de streaming

Se você gosta de black music, especialmente de Rhythm and Blues (R&B), a série pode deixar tudo mais nítido quando você for ouvir Maxwell, Michael Jackson e Whitney Houston. Ou mesmo quando for rever a apresentação da Beyoncé na cerimônia de funeral do Kobe Bryant

Lançada no final de 2020, a série que mistura reality show com concurso de cantores, revela-se uma excelente oportunidade para conhecer a relevância e a influência da música gospel no R&B ao longo de décadas. 

Pharrell Williams não descarta os momentos de superação e resiliência de cantores e cantoras, emocionantes testemunhos e vozes que se mostram incríveis nas inúmeras audições que ele e o Bispo Ezekiel Williams (seu tio) empreendem na busca pela renovação e fortalecimento deste estilo musical, para a formação de um coral multicultural. 

Quando terminar, corra nas plataformas de streaming de áudio e ouça Peggy Britt (não tem muita coisa disponível, mas vale a tentativa), que na série faz o papel de juíza e treinadora das novas vozes do gospel. 

Voices of Fire | Official Trailer | Netflix: https://youtu.be/ef8fPZjdsww 

Guerreiras da Paz: como a solidariedade, a fé e o sexo mudaram uma nação em guerra, de Leymah Gbowee e Carol Mithers

Lançado em 2012, em português, pela Companhia das Letras, “Guerreiras da Paz”  apresenta um relato sincero e verdadeiro de Leymah Gbowee, que viu os horrores da guerra na Libéria e, ainda assim, encontrou forças para lutar por liberdade e justiça. Em 2011, ela foi agraciada com o Prêmio Nobel da Paz. 

O livro é um convite, ou melhor, uma convocação para olhar a história da guerra na Libéria a partir de outro ângulo, aquele registrado pelos olhares das mulheres daquele lugar. Leymah Gbowee simplesmente tira as mulheres do pano de fundo e coloca elas em lugar estratégico, inclusive nos inúmeros movimentos por sobrevivência, liberdade e paz. 

Escrito em primeira pessoa, o livro é dividido em três partes. A primeira delas é fundamental para entender a história de Leymah, o contexto familiar e a situação do país. Na segunda parte, ela não só encontra e reforça sua própria voz, mas constrói um lindo e importante coro com vozes femininas que se mostra necessário para o fim da guerra. Na terceira e última parte, ela volta a falar mais dela mesma, da família, do futuro e da nova rede de mulheres que ajudou a construir. 

Quando li pela primeira vez, senti um nó na garganta por várias vezes enquanto folheava as 300 páginas de história. Se você é mulher, e ainda que não seja negra ou de algum país do continente africano, certamente se identificará com vários momentos da história que Laymah compartilha nesta publicação. 

Em vários trechos, Laymah não só demonstra coragem, mas uma certeza sobre a sua sobrevivência e de sua família. No início do penúltimo trecho da primeira parte, quando ela conta sobre o percurso rumo a Gana, ela diz: 

“Estávamos bem em frente ao litoral da Costa do Marfim quando ouvi choro e gritos. Estamos fazendo água! Vamos afundar! Daniel (seu companheiro) correu para baixo para ajudar os que tentavam tirar a água do barco. Uma estranha serenidade tomou conta de mim. De alguma forma, eu tinha certeza de que meus filhos e eu sobreviveríamos, mesmo que fosse preciso passar por cima dos corpos dos outros para nos salvar”. 

Em vários outros momentos ela demonstra uma certeza inexplicável no futuro diante dos horrores que atravessam ela e sua família. É, sem dúvida, uma história de resiliência.

Sem spoiler, sugiro atenção especial ao que Leymah Gbowee ensina e registra sobre a estratégia exitosa das mulheres quando elas decidem se colocar de pé contra Charles Taylor e sentar pela paz. 

O livro tem tradução para o português  de Donaldson M. Garschagem. 



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Jornalista, pós-graduada em comunicação e saúde, consultora na área de comunicação, planejamento e sistematização com foco em saúde, gênero e raça. Escreve sobre beleza, identidade e autoestima.

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