Salve, Jorge!

Redaçãoabril 23, 20201 min
https://revistaraca.com.br/wp-content/uploads/2020/04/Jorge.png

Sabemos que a devoção a São Jorge é compartilhada entre cristianismo, umbanda e candomblé. Mas poucos sabem que o islamismo também celebra o dia do Santo Guerreiro. Muçulmanos associam a figura de São Jorge a Al-Khidr, mencionado no Alcorão como um amigo de Moisés.

A relação do islã com o santo pode parecer improvável, já que São Jorge teria nascido no ano 275, quase dois milênios depois de Moisés, que teria vivido 1.500 anos antes de Cristo. Mas, segundo o Alcorão, enquanto os filhos de Israel vagaram pelo deserto em busca da terra prometida, Moisés conviveu com Al-Khidr. Há quem diga que Al-Khidr foi um profeta. Outros o veem como um servo de Alá. Alguns, porém, apontam que Khidr seria Kothar wa Khasis, personagem mitológico capaz de matar dragões. Viria daí a associação de Khidr a São Jorge, o caçador de dragões na mitologia cristã.

 Entre o mito e a história

A vida de São Jorge é bordada pelos cruzamentos entre o mito e a história. Há duas versões sobre a trajetória do santo, e o relato mais antigo sobre a sua existência é o fragmento de um texto grego do século 5. Mas milhares de fiéis peregrinam todos os anos à cidade de Lod, em Israel, onde fica a Igreja Ortodoxa de São Jorge, que abriga o túmulo (foto) onde estariam guardados os restos mortais do Guerreiro. Outra curiosidade sobre o culto na região se refere ao Mosteiro Ortodoxo Grego de São Jorge, na Judéia. O santo que nomeia o mosteiro não é Jorge da Capadócia, e sim Jorge de Coziba, nascido no Chipre. Mas o culto ao Guerreiro é tão forte, que muitos vão até lá achando que se trata do famoso.

O mártir virou guerreiro

São Jorge é popularmente conhecido como o Santo Guerreiro. Mas nem sempre foi assim. De origem oriental, ele era considerado pelos cristãos ortodoxos (foto) um santo protetor e seu culto se devia especialmente por ser um grande mártir. A popularidade de São Jorge cresceu a partir do século 11, quando o Império Bizantino se envolveu em conflitos militares, sobretudo contra muçulmanos, e passou a ser governado por uma aristocracia de formação militar. Aos poucos, São Jorge perdeu as características que o ligavam ao martírio e passou a ser retratado prioritariamente como um militar, de espada em punho e escudo de defesa, combatendo o dragão. “Quando os cruzados voltaram do Oriente Médio, passaram a atribuir suas vitórias a São Jorge, que no Ocidente, passou a ser conhecido como o Santo Guerreiro”, diz Fraga.

Igreja virou estábulo

Quem for visitar o local onde São Jorge teria nascido pode ficar decepcionado. A Igreja de Güzelöz, vilarejo da Capadócia apontado como berço do Guerreiro, foi transformada em um estábulo. Não foi a única. A maioria das igrejas cristãs foram abandonadas com o declínio da religião no país. Hoje, os cristãos não chegam a 1% da população turca, e se dividem entre cristãos armênios, siríacos, ortodoxos gregos e adeptos de cultos latinos, como os católicos romanos. Só nos últimos anos, com a crescente presença de turistas devotos de São Jorge, o governo turco começou a se preocupar com a conservação das igrejas. “Foi desolador ver a degradação do patrimônio histórico cristão na Turquia. Mesmo com toda a recente tentativa de preservação, é impossível resgatar a riqueza dos afrescos”, diz Cesar Fraga.

Jorge, Ogum e oxóssi

Ogum é um orixá dos mais populares no Brasil. Na condição de guerreiro, Ogum foi associado a São Jorge por aqui. “Foi no estado do Rio que surgiu a Umbanda, religião que resulta do amálgama entre calundus, pajelanças, catimbós, encantarias, cabocladas, culto aos orixás iorubanos, arrebatamentos do cristianismo popular, espiritismo kardecista e afins. Nos ritos do Candomblé, Ogum é um orixá ao qual são oferecidos bodes, galos e inhames carás temperados no azeite de dendê (foto). Na Bahia, São Jorge não é aproximado a Ogum, e sim a Oxóssi, orixá da caça e da fartura”, escreve Luiz Antônio Simas, que faz uma ressalva: “Muitos candomblés vêm adotando posturas contrárias ao sincretismo com os santos católicos, em um processo chamado por alguns de reafricanização do culto”.

Das ruas para os desfiles de carnaval

Procissões e feijoadas em honra ao Santo Guerreiro são tão tradicionais na cidade do Rio de Janeiro, e a devoção já ganhou até o espaço mais democrático: a avenida Marquês de Sapucaí. Depois de ter proibido o desfile do Cristo Mendigo, idealizado pela Beija-Flor, em 1989, a Arquidiocese autorizou a Estácio de Sá a fazer um desfile sobre São Jorge, em 2016, desde que não depreciassem o santo e não fizessem menção ao sincretismo religioso. A agremiação fez referências discretamente: o refrão do samba falava de seu manto carregado de axé, palavra de iorubá que significa energia. Outro trecho citava a feijoada, comida votiva de Ogum. Uma alegoria da escola trazia referências às yabassês, mulheres iniciadas no candomblé que preparam os alimentos das divindades.Nos anos seguintes, a figura de Sã Jorge voltou com assiduidade aos desfiles. No último carnaval, a União da Ilha levou para a avenida uma impactante performance na qual uma  enorme Lua estava presente, adornada por um São Jorge, protegia a alegoria representativa de uma favela.

https://revistaraca.com.br/wp-content/uploads/2017/08/logo-scaled.jpg

Há 24 anos no mercado, a pioneira e mais antiga publicação negra do Brasil.

Comentários

Comentários