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São Paulo já tem pré-candidato negro a prefeitura nas eleições de 2020

Manhã de domingo ensolarado em São Paulo. Esperando para um bate-papo aqui no Tatuapé, sede da  revista RAÇA. O telefone toca. É o nosso entrevistado.

“Pestana, não da para vir aqui? Te dou o endereço, é próximo ao metrô Saúde você vem”.

Claro que fomos para lá para a entrevista! Afinal é o furo, primeira entrevista com o pré candidato negro a prefeitura de São Paulo em 2020. Ao chegarmos a uma casa simples, fomos conduzidos até a cozinha. Foi lá que nosso entrevistado nos recebeu. Ali, enquanto conversávamos, ele revezava entre os dotes culinários e embalar o filho João, nascido há menos de duas semanas, uma vez que a companheira ainda estava se restabelecendo.

Como costumo dizer, não há melhor lugar para se conversar, nas famílias pretas, que na cozinha. Ex-ministro dos Esportes responsável pelo realização da Copa do Mundo no Brasil, com passagens pela Câmara Municipal de São Paulo como um dos vereadores mais atuantes no seu período, e agora  Deputado Federal no segundo mandato, sempre aparecendo na lista dos 10 melhores parlamentares em Brasília e um dos líderes mais respeitados (se não o principal deles!) na oposição ao governo de Jair Bolsonaro, estamos falando do baiano Orlando Silva.

Em frente ao fogão, cozinhando o almoço para a companheira, a mãe e para mim, ouvi e entendi um pouco das ideias e propostas do primeiro pré-candidato negro na cidade na qual mais de quatro milhões de pessoas se auto-declaram negros e pardos, em suma, a maior cidade negra do país, isso e um pouco mais, é o que você vai ver na entrevista a seguir

Orlando Silva, ex-presidente da UNE, ex-vereador na capital, dois mandatos de deputado federal, qual a importância desse novo desafio de disputar a prefeitura da cidade de São Paulo?
R: A cidade de São Paulo me acolheu há quase 30 anos, assim como o fez e faz com tantos brasileiros e estrangeiros que aqui constroem suas vidas. É um desafio e uma honra ser pré-candidato a prefeito de uma cidade que pode jogar papel no atual quadro de crise que o país vive. Aqui vivem 12 milhões de pessoas, temos um orçamento de 60 bilhões de reais, grande parte da intelectualidade universitária, grandes segmentos econômicos, por isso o que acontece em São Paulo repercute na vida nacional. Para mim, o poder público, diante do desemprego e da miséria que assolam grande parte de nosso povo, precisa estar disposto ajudar a melhor a vida dos mais pobres, precisa cuidar primeiro de quem mais precisa.

O senhor se encontra no extremo oposto da política vigente, não só no estado, mas na cidade e no país, faz oposição a essas três instâncias de governo, que ganharam eleições recentemente, como atrair o voto desses eleitores que não votaram no campo da esquerda nessas últimas eleições?
R: A primeira coisa a ser observada é que a manutenção dessa polarização política insana atrapalha muito o Brasil. É lamentável que o governo Bolsonaro não tenha nada de construtivo para apresentar ao país, esteja aí, como ele mesmo disse, apenas para destruir o que foi feito em décadas de esforço dos brasileiros.

Acho que é preciso buscar a despolarização política colocando como centro a defesa da democracia. A partir daí, precisamos debater meios para voltar a crescer, gerar emprego, distribuir renda. No caso da disputa municipal, debater como a cidade pode ajudar a acolher, apresentar políticas públicas que ajudem a minimizar o sofrimento dos mais pobres. Isso nem é monopólio da esquerda, é questão de humanismo. Então, acho que é preciso ir pra rua, falar com as pessoas, recuperar a confiança na política.

Educação, saúde e habitação, atrás de segurança pública, são os principais problemas da cidade e afetam diretamente a população preta e pobre da periferia, que respostas o governo de Orlando Silva tem para esses problemas?
As periferias da cidade sofrem mais com as desigualdades sociais e a falta de políticas públicas que possibilitem oportunidades a todos. Nós, negros, somos mais afetados, porque os mais de 300 anos de escravidão ainda pesam muito, hoje a escravidão se reflete nos maiores índices de desemprego, de pobreza, de vítimas da violência, inclusive a policial, que se abate sobre nós.

A educação pública no município de São Paulo tem capilaridade no município, bom nível de professores e profissionais, que precisam ser valorizados. Sofremos com falta de vagas em creches, o que tem proporcionado a proliferação de conveniadas, que devem ser fiscalizadas devidamente. Na saúde, a atual gestão fez dois absurdos: fechar UBSs, ainda com João Dória, e mudar o SAMU, mais recentemente. Precisamos reverter essas decisões e cobrar o governo federal. Agora mesmo, ganhamos em liminar a manutenção de contratos de alguns profissionais do Mais Médicos aqui na cidade. Isso sequer tem ônus para o Ministério da Saúde, mas eles recorreram e cassaram a liminar por pura retaliação política contra o programa. É um absurdo, pois quem vai ficar sem atendimento é o povo pobre da periferia. Vamos lutar para reverter.

Preocupa muito que o governo federal tenha quase paralisado o Minha Casa Minha Vida. A prefeitura precisa contribuir com programas habitacionais próprios mais ousados, os números de moradias construídas pela atual gestão são pífios. Por fim, a segurança pública é um drama que afeta principalmente os mais pobres: são 65 mil homicídios por ano. As vítimas são os jovens pobres, negros. Isso não pode ser tolerado. O prefeito de São Paulo, com sua autoridade e força política, precisa trazer essa discussão para a esfera pública, chamando à mesa os outros entes federativos, aqui principalmente o governo do estado, para buscar diminuir esses índices de violência que tanto sofrimento trazem aos mais humildes.

O senhor é o único candidato negro oficialmente a disputar a prefeitura de São Paulo. Que simbolismo essa candidatura pode ter para os mais de quatro milhões de habitantes que se auto declaram negros na cidade São Paulo?
Nossa luta é para vencer, não apenas para marcar posição. Ser o único negro na disputa, por si, já demonstra o quanto a política ainda é um espaço pouco aberto para a grande maioria do povo. Existe um racismo estrutural no Brasil e sua maior expressão é a desigualdade social, a miséria em nosso país é principalmente negra. O negro sofre mais com o desemprego, com os cortes das políticas sociais e de inclusão, com a violência. Isso não é discurso, é estatística. Eu não conheço o preconceito de ouvi falar, eu senti e sinto na pele e na alma.

Mas vejo florescer um orgulho da negritude nas pessoas, um sentimento de pertencimento muito bonito. Vejo também esse sentimento em relação às periferias. O mano e a mina que têm orgulho de viver na “quebrada” e não quer sair de lá, quer mudar o lugar em que nasceu e cresceu para melhor. Os negros e a periferia estão se politizando. É com esse povo que me identifico e ficarei muito orgulhoso se conseguir ser sua voz na eleição.

A morte de jovens negros em nossas periferias é uma das maiores tragédias que país ostenta, mesmo segurança pública não sendo da competência da prefeitura, que resposta o senhor daria como prefeito da maior cidade e terceiro maior orçamento do país?
Essa é uma questão central. O Brasil chegou à marca de 65 mil homicídios ao ano, um escândalo. Vá ver quem são os alvos. Jovens, negros, pobres, é um verdadeiro genocídio. O Brasil tem a terceira população carcerária do mundo, mais de 700 mil presos. Quem está preso? Jovens, negros, pobres, presos por furto, roubo ou por ser “avião” do tráfico. É uma calamidade.

Bolsonaro e Moro querem piorar ainda mais esse quadro. Aquele tal pacote anticrime é uma barbaridade. Dá “licença para matar” para que o mau policial extermine vidas nas periferias, facilita o encarceramento em massa. Felizmente, com muito empenho nosso – eu participo do grupo de trabalho sobre o projeto -, conseguimos desmontar esse monstro. Mas temos que lutar para isso não voltar no plenário, temos que impedir esse absurdo. Aprovar isso é incentivar a tal “necropolítica” que tem se falado hoje em dia.

A prefeitura pode ajudar, sim. Primeiro, como já disse, com sua força política, chamando os outros entes para discutir a questão e propor soluções. Outra é capacitar e levar políticas de humanização para a GCM, que muitas vezes fica seduzida em ser polícia. Outra é ter políticas sociais que deem perspectiva para as pessoas.

A Secretaria da Igualdade Racial da cidade de São Paulo, foi extinta pelo governo João Doria. O senhor tem planos de restabelecê-la numa possível vitória na capital?
Sem dúvida. Fazem a demagogia de que estão economizando e acabam com políticas públicas de inclusão que são tão importantes para parcelas historicamente discriminadas.

Que políticas o senhor acha possível estabelecer na cidade afim de reduzir as grotescas diferenças entre ricos e pobres, entre pretos e brancos?
O poder público tem que cuidar primeiro de quem mais precisa. Tem que fazer opções, então, proponho que se opte por aquilo que melhora a vida dos mais pobres. Por exemplo, não se ouve mais falar em frente de trabalho, em políticas emergenciais de renda. E se São Paulo isentar o IPTU do desempregado ou implantar uma lei que existe há décadas, mas não foi efetivamente implantada, o passe-livre para o desempregado? Isso é pouco no orçamento e muito na vida de quem está sem nada. A prefeitura pode fazer. A retomada das obras paradas, outra coisa que geraria empregos. A prefeitura sozinha não vai resolver esse problema, mas ela pode ao menos se preocupar em ajudar.

O senhor acabou de ser pai do João, seu terceiro filho. Que São Paulo o senhor espera deixar para essa e as demais gerações?
Uma cidade referência na questão democrática, de oportunidades para todos, de respeito às diferenças, de sensibilidade para acolher quem sofre, uma cidade que cuide mais de quem mais precisa.

 

 

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