“Sou Jaqueline Góes, preta como muitas outras”

Redaçãomaio 4, 202011 min
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Graduada em Biomedicina pela Escola Bahiana de Medicina e Saúde Pública, mestre em Biotecnologia em Saúde e Medicina Investigativa (PgBSMI) pelo Instituto de Pesquisas Gonçalo Moniz – Fundação Oswaldo Cruz (IGM-FIOCRUZ) e Doutora em Patologia Humana e Experimental pela Universidade Federal da Bahia. Desenvolve pesquisas na área das arboviroses emergentes ZIKV, DENV, CHIKV, YFV, ORV e MAYV. É integrante do ZIBRA Consortium, projeto itinerante de mapeamento genômico do vírus Zika no Brasil. Realizou estágio de doutoramento na Universidade de Birmingham, Inglaterra, desenvolvendo e aprimorando um sequenciamento de genomas completos dos vírus Zika, HIV, além de protocolos para sequenciamento direto do RNA. Atualmente desenvolve pesquisas como bolsista FAPESP, em nível de pós-doutorado, no Instituto de Medicina Tropical de São Paulo – Universidade de São Paulo (IMT-USP).

Estamos falando da Dra. Jaqueline Góes de Jesus, líder do grupo de cientistas brasileiros que desvendaram o sequenciamento do novo coronavírus, que teve o primeiro caso na América Latina confirmado em 26 de fevereiro. Publicado com uma rapidez surpreendente – apenas dois dias após a verificação do primeiro paciente com a doença no Brasil –, o estudo que elas conduziram ao lado de outros pesquisadores do Instituto Adolfo Lutz (IAL), da Universidade de Oxford e do Instituto de Medicina Tropical da Universidade de São Paulo (IMT-USP) ajudará epidemiologistas, virologistas e especialistas em saúde pública a desenvolverem vacinas e testes diagnósticos. Mas ela prefere deixar o título na academia e, por nós, ser chamada apenas de Jaqueline. 

“Fiquei muito conhecida recentemente, sou uma cientista, dentro do meio acadêmico o reconhecimento foi muito bacana, mas sou uma mulher preta, que a gente não está acostumada a ver nesses espaços. Sou a Jaqueline Góes, preta como muitas outras”, disse.

 

Confira a entrevista:

Não houve como deixar de comemorar – e muito – o fato de ser uma mulher preta a líder desse estudo tão significativo, nesse delicado momento mundial. Como tem sido essa questão?

Dra. Jaqueline Góes: Leio muitos comentários questionando para que comentar a cor da pele? Quem faz esse tipo de comentário não entende que falar que sou uma mulher preta não muda minha capacidade intelectual. Mas não estamos acostumados a ver pessoas pretas ocupando esses espaços. Temos, sim, que ressaltar: sou uma mulher preta! A gente não ocupa esses espaços, normalmente. Quando um consegue alcançar, acaba dando visibilidade para uma comunidade normalmente invisível na sociedade e que precisa se ver, ter uma referência e saber que é possível. É preciso sim ter uma figura de representatividade.

Houve maior procura de estudantes e pessoas que anseiam ter a sua profissão?

Fico muito realizada quando meninas dizem que querem ser como eu. Dou uma atenção maior porque não tive isso. Fui considerada, até na minha família, como uma pessoa revolucionária, por um lado negativo. Até os meus pais tive que peitar muito para conseguir alguma coisa. Sempre me apoiaram em termos educativos, mas em algumas questões de ocupação de espaço, foi difícil. Tive que ser a pessoa que briga. Odeio injustiça e brigo mesmo! No meu núcleo familiar sempre fui a que brigava e botava a cara.

Com essa voz suave?

Tenho um modo bem particular, não levanto a voz, mas imponho minha opinião, minha posição. Não precisamos ganhar no grito. A gente grita quando nossos argumentos estão falhos. Eu nunca precisei gritar para colocar meu ponto de vista num contexto.

Conte-nos um pouco de sua trajetória na Biomedicina. Quais eram seus anseios na infância? Como seus pais receberam seu desejo de enveredar nessa área? 

Venho de uma família formada por meus pais, Edna Silva Góes e Jurandi Pereira de Jesus, e meu irmão Jônatas Góes de Jesus. Meus pais tiveram origem muito humilde e ambos conseguiram melhorar sua qualidade de vida através dos estudos. Ela, técnica em enfermagem e também pedagoga. Ele Engenheiro Civil, ambos graduados pela Universidade Federal da Bahia. Por entenderem que a Educação é o maior bem que se pode dar aos seus descendentes, sempre nos incentivaram a estudar e investiram tudo que puderam em nossa educação. Cursei todo o período de educação fundamental em escola particular e na migração para o ensino médio fui aprovada na seleção para o IFBA (antigo CEFET-BA). Lá cursei os três anos do ensino médio. Ao escolher o curso de Biomedicina, as opções em Salvador eram apenas em escolas particulares e optei pela Escola Bahiana de Medicina e Saúde Pública, com apoio dos meus pais, que também arcaram, de forma integral e sem financiamentos, com os custos da minha formação. Por isso, tudo que alcancei até hoje, sem dúvidas, devo a eles. Durante a graduação, grande parte dos professores que lecionavam no meu curso era de pesquisadores da Fundação Oswaldo Cruz (FIOCRUZ-BA). Ao ouvir a vivência deles e principalmente da professora Aline Cristina Andrade Mota Miranda Mascarenhas, hoje professora do departamento de Bioquímica do ICS-UFBA, encantei-me com a possibilidade de ser também pesquisadora. Foi ela a pessoa que me inspirou a seguir para a área de pesquisa. Coincidentemente, ela foi também a pessoa que, mesmo sem saber dessa admiração, indicou-me para uma vaga de estudante de Iniciação Científica no grupo de pesquisa no qual trabalhava, com a professora Gisele Calazans de Sousa Costa, também professora do ICS-UFBA, com quem dei meus primeiros passos na ciência e aprendi a base da Biologia Molecular. Dali, recebi o convite do professor Luiz Carlos Junior Alcântara para continuar no grupo de pesquisa e fazer o mestrado, que se estendeu para o doutorado.

E houve muita dificuldade por ser uma mulher negra? 

Nossa sociedade é extremamente preconceituosa. As pessoas estão entrelaçadas numa trama de racismo estrutural que faz com que atitudes preconceituosas sejam tidas como normais. Partindo dessa constatação, posso afirmar que enfrentei muita coisa para chegar onde estou, mas não lembro de ter vivido nenhuma situação explícita. O racismo e a misoginia são velados, principalmente dentro da academia, onde as pessoas, por serem mais instruídas, acabam mais polidas. E só quem está muito atento consegue enxergar as sutilezas.

Alguma situação específica?

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